quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Árvore de Natal.

Ninguém se deu ao trabalho de ir ao quarto de despejo buscar a caixa da árvore de Natal. O assunto foi ventilado e rapidamente deixado de lado. Parece que temos um acordo silencioso de respeito (?) àqueles que não podemos mais convidar para a festa ou pelo menos imaginá-los, mesmo que sozinhos, doentes, bêbados, passando a noite de Natal em algum lugar.
Aos vivos, a ceia de sempre, quase ninguém se lembra do cardápio dos anos anteriores. Bebidas, claro, sempre muitas bebidas, frutas e doces, tudo familiar e quase cristão.
Será bem parecido com os outros natais, só que sem bolas coloridas e luzinhas piscando.
Este ano, não.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Coisas que provocam certo desconforto.

O vento passando pelo buraco da fechadura.
O cachorro arrepiado, ladrando para o vazio.
Olhar o mapa mundi e saber que sua filha está num país muito distante.
O interfone toca, você atende e ninguém responde. Você pensa “foi um moleque” e volta para o quarto pensando em possibilidades bem mais sérias.
Perceber que seu terapeuta também esqueceu o que você sonhou.
O interfone toca outra vez. Ninguém responde.
Você só ouve o vento.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

.Tolices minhas

Coisas boas de pensar durante caminhadas matinais.

Há um boizinho pastando na montanha verde com neblina.
Numa cela de convento, um frade muito velho tem a fé mais absoluta e os olhos brilhantes de doido.
Na cama beliche um adolescente febril se masturba com cuidado para não acordar o irmãozinho.
Família na Mongólia toma chá quente na tenda e escuta o ruído da tempestade de areia.
Na ilha Sumatra, o orangotango bebê observa atentamente a textura do tronco da árvore, sem saber que ainda vai viver 25 anos.
Ofélia foi salva da água e ficou velha.
Há uma ninhada de pintinhos debaixo da asa da galinha.
O boi almiscareiro não sente frio nenhum.
A lagartixa tem medo de mim.
Na Praça da Liberdade, normalmente, não há repteis.
Meus amigos mortos talvez estejam mesmo descansando.
Bom mesmo é ter nankin e lápis de cor.
O menino pobre canta bem e será famoso.
Caminhadas me fazem saudável e feliz.
Elvis não morreu.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Medo.

Medo.

Passar o cadeado grande no portão da frente, aquele que me liga diretamente com o mundo fora de casa. Verificar se o contato da alça está bem firme na orelha de ferro do batente, depois checar o painel da cerca elétrica: a luz vermelha deve piscar intermitentemente, sinalizando para você que os dez mil volts impedem qualquer ser vivo de ultrapassar os muros altos.
Em seguida, fechar as três chaves da porta de entrada, sintonizar o rádio em alguma estação religiosa e deixá-lo ligado para simular que alguém está acordado, orando, cheio de fé, protegido por Deus.
Depois da primeira escada, ligar a TV bem baixinho. Algum intruso pensará que um notívago atento passa a noite na sala assistindo programas imorais, sentado na poltrona escondida nas trevas da devassidão.
Ao ultrapassar a segunda escadaria, é preciso averiguar se as janelas deste andar estão bem trancadas, cada uma com duas trancas de ferro, além das tramelas de segurança.
A esta altura já posso já posso procurar na televisão de meu quarto algum canal de filmes de terror e dormir, morta de medo de ficar trancada aqui para sempre.