terça-feira, 27 de outubro de 2009

Clarice.


des17
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

domingo, 25 de outubro de 2009


Almoço.

O primeiro almoço do ano foi patético. A comida ruim foi pretexto para outras sugestões de receitas, temperos que deveriam ter sido usados, técnicas de tias e mães para cozidos, farofas e a maneira correta de aquecer o arroz, além da pimenta que, ao contrário do que se diz, não provoca nem agrava as hemoróidas. Só a pimenta do reino, tia, quando usada em grande quantidade.
Muito cuidado com os ossos de frango, não deixem os cachorros pegarem e embrulhem bem o lixo. Até os cachorros de raça são vira latas, hahaha, sabia disto, tia? Os ossos de frango viram agulhinhas e perfuram o intestino dos cães, provocam hemorragias internas, o bicho morre evacuando sangue.
__Você falou “evacuando”, Lu?
__Claro. Queria que eu falasse palavra chula durante a refeição? compostura é muito importante, num é mesmo tia?
__É, claro que é.

sábado, 24 de outubro de 2009



Paracelso.
15 de agosto de 2009-08-15 (Celso).
Jairinho me ligou chorando muito, foi difícil entender sua voz rouca interrompida pelos soluços. Ele dizia: “faleceu, faleceu hoje, faleceu”.
Quem, Jairinho, quem faleceu? Vinícius, Tom, Michael Jackson? Foi sempre você quem me informou desses falecimentos que o deixaram tão triste e exaltado, quase festivo em seu descontrole de doido quase santo. Quase? Sei não, penso às vezes que Jairinho é santo mesmo, ninguém tem os olhos assim tão transparentes em vão. Aqueles são olhos de santo, ou anjo, caso exista anjo.
_O Celso! Foi o Celso quem faleceu. Acordou, tomou banho, tomou café e faleceu.
Celso era lindo. Também tinha os olhos azuis e transparentes feito os do irmão. Mas não olhos de santo, eram olhos bonitos de gente mesmo. Foi também magrinho, cabeludo e apaixonado por uma inglesa chamada Kath que casou com ele, veio para o Brasil, não gostou, até do marido se desencantou e voltou para a Inglaterra de onde não mais saiu. Soube-se que casou de novo e tem dois filhos.
E o Celso? Continuou apaixonado, sonhava voltar à Europa para arranjar outra inglesinha, e hoje de manhã tomou banho, tomou café e faleceu.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Texto de meu amigo Paulo Augusto de Lima.


Quando eu era menino...
As coisas pareciam mais fortes
Porque eu era menino;
A pimenta, o azeite, o alho pareciam mais fortes;
O quarto parecia maior,
Os horrores pareciam maiores; O leite era o leite.
Quando eu era menino, as calças sim, eram mais curtas,
O sapato vulcabrás,
E eram tantos fardins;
Só depois descobri as matas;
Só via a miséria, às vezes;
Hoje conheço sua face cruel.

Quando eu era menino,era só ir à escola.
Hoje estou formado pela escola da vida.
Deus era só uma idéia;
Hoje, mais perto de Deus.
Mal conhecia o mau;
Hoje o coheço bem.
As mulheres eram meninas,
As mulheres eram mistério.

Também me apaixonei pela
Professora.
Tive um coelho;
Tive um cão;
Tive um passarinho.
Tinha meu avô.
Quando eu era menino.
Oh, que saudades
Que eu tenho.

sábado, 10 de outubro de 2009

Coisas tantas e fascinantes.


Selma Weissmann














Coisas tantas e fascinantes















2007









Ondina, dona Ondina.
A menina, curiosa e dissimulada, ao ouvir o nome Ondina, imaginava seios fartos em luxuoso decote de veludo preto, oscilando feito ondas, em dia de maré calma.


















A mãe e as tias sussurravam quando falavam de Ondina, cuidavam que as crianças não ouvissem, aumentando ainda mais a curiosidade da menina astuta, que fingia se ocupar de qualquer coisa menos suspeita do que o intrigante mistério de Ondina.
Entreouvia palavras magníficas: divórcio, petulância, roupas raras feitas por modistas, leques de plumas, coisas tantas e tão fascinantes que, quando tinha febre, a menininha delirava, imaginando o mundo suspeito e atraente de Ondina, em ondas, quebrando suaves no decote macio.











E a beleza? Ao falarem da beleza de dona Ondina, a mãe e as tias, que ainda eram bonitas, pareciam se recolher à senzala das mulheres feias. Negros cabelos de azeviche, carnudos lábios obscenos de batom vermelho, olhos escuros e pintados de (aí a menina ouviu a palavra mais bonita) : “prostituta”.














Enquanto as mulheres conversam e bordam na varanda, Menina , às escondidas, consulta o dicionário do avô. A resposta não esclarece nem agrada : “mulher de vida fácil, meretriz”. Decepcionada, volta ao alpendre e ouve uma das tias: “à luz do sol, que Deus me perdoe, mas é um descaramento”. Outra tia, esta muito míope : ”foi ela, sim, que acabou de passar, estou sentindo o perfume indecente! “A mãe: ”é uma pena, mulher tão bonita.”











Ao perceber que havia perdido talvez a única oportunidade de ver de perto dona Ondina, a prostituta que acabara de passar diante da casa dos avós, a menina deu meia volta e correu. Passou pela sala de visitas, pela sala de jantar, pelo corredor dos quartos, pela despensa, banheiro e cozinha. Ofegante, desceu a escada que levava ao tanque de lavar roupas, atravessou o longo quintal e chegou ao portão dos fundos, na garagem onde ficava o Chevrolet preto.












Deitou no chão e, pelo estreito espaço abaixo do portão, ainda teve tempo de ver os pés branquíssimos, calçados em estupendos sapatos de saltos muito altos e finos, listrados de preto e branco: listrinhas bem finas, discretas, a coisa mais inusitada que já vira.












Continuou deitada no chão até parar de ouvir o toc-toc dos passos de Ondina. Respirou fundo várias vezes, apreciando o ar puro da tarde verde e resolveu: ”quando crescer, só vou usar sapatos bonitos assim, de meretriz”.