quarta-feira, 21 de julho de 2010

Texto de dra. Vera.

18-06-2010
São 20 para 1h. Fui acordada pela mulher que a Selma pinta. Gosto
delas porque elas têm vida e me acompanham.
Eu gosto da Selma de
outras vidas. Há uma sensação de intimidade com ela, sem explicação. É um
sentimento bom e tocante. Suas mulheres me seguem. Me tiram da cama e
exigem que eu escreva. É como se eu precisasse dar confiança a elas. Sou
tomada por uma necessidade de conversar com elas. Elas não me deixam
dormir.
Aí é que está o grande mistério da Selma: é um dom de outro mundo
que ela tem. Transmite vida e calor ao que pinta. Pelo menos é o que me
transmite. Uma coisa extraordinária. As mulheres saem do quadro e me
acompanham e me acalmam. Uma coisa muito interessante. A mulher azul é
minha amiga. Parece que ela tem muito de mim. Só falta falar. Eu falo por ela
com minhas palavras.
Eu estava trançando com ela pela casa, procurando um lugar para
pendurar o quadro, que ainda não está pronto. Já tiramos o Volpi da parede
para dar lugar ao meu quadro. Há anos ando cismada em pedir a Selma
que me pinte. E chegou a hora. Eu sei que vou ter grandes papos com esse
quadro, que já vem se corporificando dentro de mim.
A Selma nunca foi uma estranha para mim. A última exposição dela
que visitei foi lá no Minas. Eu fiquei lá, fantasiando com quantas mulheres
fantásticas daquelas desejaria ir embora. Como não podia levar todas,
pelo menos umas seis ou oito me acompanharam! E elas vinham de
bom grado. Não me acharam muito louca. Me acompanharam numa boa.
Essa mulher azul, com seus olhos enigmáticos, povoa os meus sonhos.
É como se tomasse conta de mim. Ela é, na verdade, muito preocupada
comigo. Onde será que ela foi procurar aquela expressão de “eu estou
entendendo você muito bem”? Às vezes, eu fico perto dela, quieta. Hoje ela
me acordou e exigiu minha atenção. Saiu do quadro e fomos passear. Esse
quadro tem uma água azul, onde eu vou mergulhar, quando quero sumir um
pouco. Penso que no fundo de suas águas há de haver um mundo lindo e mais
brando. Ainda chego lá. Quem sabe o quadro não me dará aquela paz de que
preciso? Será que seus olhos enigmáticos estão me prometendo alguma coisa
muito boa e muito azul?
Vera Silviano Brandão