quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

31 de dezembro.

31 de dezembro de 2009.

A impressão é de que sou a mulher do filme que havia morrido e não sabia, ou então que o mundo acabou e só eu sobrei, sozinha, sozinha, sozinha.
Chove sem parar e faz calor. As plantas de dentro de casa estão secas. Por causa da chuva eu devo ter pensado que não precisavam de água.
A casa é enorme e eu sou grande e desajeitada dentro dela, só no meu cantinho consigo me acomodar, os dois cachorros ao lado, apreensivos ao menor ruído. Uma folha seca que cai, a madeira da escada estalando, o gatinho que mia no telhado, ao mínimo sinal os cães levantam as orelhas e farejam o ar com desconfiança. Logo em seguida se enrodilham e dormem, enquanto eu continuo a vigília.
Uma voz de mulher, alguém disse algo na vizinhança. Não consigo entender as palavras mas é algo que soa como “fica com Deus”.
O toque do telefone me sobressalta, deve ser engano ou trote.
Não é. Uma voz amiga me comunica estar vindo para cá, vai trazer um peru, vinhos e uvas para fazermos uma ceia.
Claro, tenho arroz e batatas na geladeira, venha logo.
E que Deus lhe abençoe.

2010!

Vamos fazer uma cara boa para 2010.

Ego


Ego
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


Um ruído familiar fez com que eu olhasse para trás, para o canto do muro do cemitério israelita. Lá estavam elas, as galinhas. Ciscavam tranqüilas e comoventes, galinhas eternas, imutáveis, galinhas da infância.
Olhar para elas durante a triste cerimônia de sepultamento de uma amiga pareceu-me um oásis na tarde chuvosa. Galinhas acionam ternura em mim. Ternura pela amiga que quis morrer mas não pensou que conseguiria, pelo belo rosto da irmã desfeito pela dor, pela cara séria e assustada de minha filha, por aquelas poucas pessoas solenes em torno do túmulo. Homens de solidéo, chorosas senhoras judias lendo preces em língua que desconheço.
É um consolo, uma sensação de paz, pensar que as aves continuam lá noite e dia, corriqueiras, domésticas.
Suaves galinhas antigas, para todo o sempre.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Árvore de Natal.

Ninguém se deu ao trabalho de ir ao quarto de despejo buscar a caixa da árvore de Natal. O assunto foi ventilado e rapidamente deixado de lado. Parece que temos um acordo silencioso de respeito (?) àqueles que não podemos mais convidar para a festa ou pelo menos imaginá-los, mesmo que sozinhos, doentes, bêbados, passando a noite de Natal em algum lugar.
Aos vivos, a ceia de sempre, quase ninguém se lembra do cardápio dos anos anteriores. Bebidas, claro, sempre muitas bebidas, frutas e doces, tudo familiar e quase cristão.
Será bem parecido com os outros natais, só que sem bolas coloridas e luzinhas piscando.
Este ano, não.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Coisas que provocam certo desconforto.

O vento passando pelo buraco da fechadura.
O cachorro arrepiado, ladrando para o vazio.
Olhar o mapa mundi e saber que sua filha está num país muito distante.
O interfone toca, você atende e ninguém responde. Você pensa “foi um moleque” e volta para o quarto pensando em possibilidades bem mais sérias.
Perceber que seu terapeuta também esqueceu o que você sonhou.
O interfone toca outra vez. Ninguém responde.
Você só ouve o vento.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

.Tolices minhas

Coisas boas de pensar durante caminhadas matinais.

Há um boizinho pastando na montanha verde com neblina.
Numa cela de convento, um frade muito velho tem a fé mais absoluta e os olhos brilhantes de doido.
Na cama beliche um adolescente febril se masturba com cuidado para não acordar o irmãozinho.
Família na Mongólia toma chá quente na tenda e escuta o ruído da tempestade de areia.
Na ilha Sumatra, o orangotango bebê observa atentamente a textura do tronco da árvore, sem saber que ainda vai viver 25 anos.
Ofélia foi salva da água e ficou velha.
Há uma ninhada de pintinhos debaixo da asa da galinha.
O boi almiscareiro não sente frio nenhum.
A lagartixa tem medo de mim.
Na Praça da Liberdade, normalmente, não há repteis.
Meus amigos mortos talvez estejam mesmo descansando.
Bom mesmo é ter nankin e lápis de cor.
O menino pobre canta bem e será famoso.
Caminhadas me fazem saudável e feliz.
Elvis não morreu.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Medo.

Medo.

Passar o cadeado grande no portão da frente, aquele que me liga diretamente com o mundo fora de casa. Verificar se o contato da alça está bem firme na orelha de ferro do batente, depois checar o painel da cerca elétrica: a luz vermelha deve piscar intermitentemente, sinalizando para você que os dez mil volts impedem qualquer ser vivo de ultrapassar os muros altos.
Em seguida, fechar as três chaves da porta de entrada, sintonizar o rádio em alguma estação religiosa e deixá-lo ligado para simular que alguém está acordado, orando, cheio de fé, protegido por Deus.
Depois da primeira escada, ligar a TV bem baixinho. Algum intruso pensará que um notívago atento passa a noite na sala assistindo programas imorais, sentado na poltrona escondida nas trevas da devassidão.
Ao ultrapassar a segunda escadaria, é preciso averiguar se as janelas deste andar estão bem trancadas, cada uma com duas trancas de ferro, além das tramelas de segurança.
A esta altura já posso já posso procurar na televisão de meu quarto algum canal de filmes de terror e dormir, morta de medo de ficar trancada aqui para sempre.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Poema de Hilda Hilst.

Hilda Hilst


"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


A sombra.
Quando Menina descobriu que sua sombra projetada no chão pelo sol ou pelas luzes amareladas dos postes era diferente das sombras das primas, passou a odiá-la, a ela, aquela sombra comprida e fina, muito mais longa que as de Soninha e Ana Maria.
Ela gesticulava e falava sem parar, apontava estrelas no céu, fazia de tudo para desviar a atenção das meninas para o alto, temerosa delas perceberem a absurda feiúra de sua sombra. A cabeça, bolinha pequena ao fim da interminável figura sem luz que começava nos pés enormes, antecipando as pernas finíssimas e o vestido medonho de Maria Mijona.
Ana Maria e Soninha tinham sombras graciosas, arredondadas, femininas e principalmente bem mais curtas.
Descobriu o estratagema de andar rente aos muros ou saltitar procurando misturar a imagem odiada às benditas e protetoras sombras das árvores.
Quando foi levada à Bienal de São Paulo e viu as peças de Giacometti surgiu o medo enorme de as pessoas perceberem a semelhança das esculturas com ela, não somente com sua sombra.
A essa altura ela e sombra eram a mesma coisa impalpável, a sombria existência da menina comprida. A sombra se projetava nela, era a sombra da sombra. Menina se apequenava diante dela, a silhueta inevitável e temida passou a reger os movimentos e escolher os caminhos, senhora da situação.
O advento das luzes fluorescentes na iluminação pública trouxe um alívio enorme, Menina passeava pelas ruas nas noites iluminadas sem perceber que a escuridão estava já irremediavelmente incorporada a ela.
Conheceu as acolhedoras salas de cinema, deliciosamente escuras, os teatros sombrios e os recantos boêmios da cidade.
Soninha e Ana Maria, em diurnas atividades e ensolarados namoros, passaram a ser primas distantes.
Menina conheceu outras pessoas em suas andanças noturnas, ursos e lobos solitários agrupados em mesas de bares, ruidosas e exaltadas criaturas que, como vampiros, desapareciam ao nascer do sol.

domingo, 8 de novembro de 2009

Coisas muito bonitas

Coisas muito bonitas.

O gotejar da água no filtro de barro.
Chaleira no fogão.
Gato no telhado.
Carta escrita à mão.
Orvalho na folha de taioba.
Poeira na réstia de sol.
Barulho de vassoura no quintal.
Som de piano na tarde de domingo.
Manga dourada no galho.
Vidro de perfume vazio.
.......................................................................
(Mandem sugestões).
.
PENSAMENTOS QUE DEVEM SER VARRIDOS DA MENTE DURANTE CAMINHADAS MATINAIS.

(caso persistam, consulte seu médico).



As ossadas foram descobertas por dois homens que faziam caminhada em uma ttrilha da mata.



Os meninos estavam caçando passarinhos.

Douglas de Freitas(13 anos) e Pedro Augusto Beltrão(11 anos), desaparecidos, não tinham dentes de leite.



As ossadas encontradas tinham dentes de leite.



Água com flúor evita as cáries.



Cinco exemplares de cachorro-do- mato-vinagre foram encontrados no norte de Minas.São animais de hábitos diurnos que caçam em bando e estão em extinção.



A mulher bonita tem gases na barriga e nem olha no espelho a brancura do pentelho.



Elvis está morto, mortinho,

Pulverizado

Em algum cantinho.

Pieguices

PIEGUICES.

A cadela pensa
Que toda a casa
É dela.

O vento faz um barulhinho safado
No papel picado.

Alguém disse que tenho medo de
Clarice?
Medo horroroso eu tenho é de
Virgínia Woolf,
Pedro Nava e
Lúcio Cardoso.

Nem vou falar nada
Sobre a casa assassinada.

Camelos e bois
São ruminantes
Muito interessantes.

O vestido de sianinha
Não consegue enfeitar
A menininha.

As cachorras brigam
Porque são amigas
E têm lombrigas.


Na multidão, quem sabe,
Está o cara-metade.

O homem bonitão, em casa,
É grosseirão, e a mulher dele,
Tão bonita,
Tem gases na barriga.

Acabo de ver o que não há?
O cachorro adormecido
Me acompanha
Com meigo olhar
De seus falsos olhos
Cor de chá?

O rosto do tinhorão
Quase sempre diz
Não.

O feitor tem
O rosto
Contrafeito.

Mulher inteligente,
Adélia ri e sibila
Feito serpente.

Olinto
O menino bonito
Que primeiro
Me mostrou
O pinto.

Dia não,
Dia sim.
Será que algum dia
Eu gostei de mim?
_______________________

Anti auto ajuda.

PENSAMENTOS POUCO RECOMENDÁVEIS .

-Você nunca vai conhecer os lugares exóticos que vê na televisão.
-O rosto sem expressão do Pai, quando nosso irmão morreu.
-A tarde do dia em que nosso irmão morreu.
-Os dias seguintes.As semanas.
-O tempo todo.
- Agora com intervalos.
-Os olhos do seu cachorro na mesa do veterinário.
-Os olhos do seu cachorro, sempre.
-Você esqueceu a cor, o cheiro, tudo que sentiu em
Portugal.
-A saudade de Don Quixote.
-A saudade de quase tudo.
-A saudade pior e maior daquilo que você nem sabe.
-Elvis, definitivamente, morreu.

Meiguices de pensar.

MEIGUICES DE PENSAR.

1-O barulho das patas da cachorra,à noite,no chão do atelier.
3-O ruminar do boizinho na paisagem.
4-Vento nas bandeirinhas de Volpi.
5-O cheirinho quente de Leonora dormindo.
6-Os dedos de Kico, digitando.
7-A voz ao interfone “Alexandre”.
8-Os sapatos brancos da enfermeira,no hospital.
9-A janela iluminada é da casa de um poeta.
10-O gato morto,inchado,flutuando no ribeirão.
11-Minha tristeza quando a tartaruga verde
faleceu.
12-Ou quando meu avô morreu.
13-Alguém se lembra do 0rgulho da galinha?
Do cheiro quente dela?
Alegria no ninho,dentro do barracão.
14-Queria ser galinha,mas não sou,não..
15-E a ninhada linda de gatinhos
no meio da bananeira,
em pleno carnaval?
16-Os olhinhos deles
17-verdes.
18-Meus olhos olhando para eles,
encantados e escuros.
19-Doce nostalgia da pornografia.
Até que era bacana
Namorar aquele sacana.
20-Aa mangas douradas
caem no telhado
e quebram as telhas
encantadas.
21-O ruído da máquina de escrever
Lettera 22
De minha mãe
Em noite febril de catapora
Chás,pomadas e Veramom.
22-Acordar e procurar ninhadas verdes no bananal.
23-Ouvir o pai sorver o chá e a mãe
a reclamar.
24-Sentar ao sol no corador
comer melancia,
fumar xuxu
e tontear.
25-Gravuras de sabão,no chão,
mostram roupas já passadas.
26-Cheiro de sol,
vento,
sabão português,
camissas
camisolas
toalhas higiênicas
e limpos lençóis
de anil e goma.
Nimguém,então,
Estava em coma.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


Estranhos amigos, pouco nos víamos, raros telefonemas, cada um em uma cidade. A mim parecia que a Ouro Preto de Paulo Augusto ficava à milhas de distância da Praça da Savassi.
No entanto nossa proximidade era muito grande. Não preciso fechar os olhos para visualizar o olhar escuro e profundo e o sorriso doce de meu amigo. Comigo ele sempre foi suave e cavalheiresco.
Há mais de vinte anos eu o vi pela primeira vez no palco, declamando lindamente Cecília Meirelles e até hoje soa em meus ouvidos sua voz poderosa:
“Quem passar entre as casas triangulares,
quem descer estas breves escadas,
quem subir para as barcas oscilantes,
repetirá perplexo:
“Há um claro afogado nos canais de Amsterdão”.
Estranha ironia?
Mais tarde nos encontramos num desses bares da Belo Horizonte de então e surgiu a amizade, descobrimos até um relativo e longínquo parentesco, um item a mais para solidificar laços de afeto. Amigos, quase parentes.
Anos depois, num episódio digno de ópera bufa, para me defender em uma situação desagradável, Paulinho partiu em minha defesa em grande estilo, um D’Artagnan magnífico e teatral. Este fato mudou o rumo de minha vida. Para melhor. Quanto à dele, mudou também. Mudou-se para Mariana, depois para Ouro Preto, cidade perfeita para o poeta passear os sonhos e a poesia que nunca o abandonaram.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Quinha.


Para dr, Roberto, uma tia avó.
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Quinha

Quinha.
Francisca, Francisquinha: Quinha sempre foi muito velhinha. Carregava sempre guarda chuva e maleta contendo papeis importantes: carteira de aposentada e retratos das netas, todas muito bonitas.

Mona Lisa e Seu Retrato 2


Mona Lisa e Seu Retrato 2
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You here?


You here?
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Monalisa, Monalisa, o que fizeram com você?
__Bandejas, canecas, toalhas de plástico, guardanapos descartáveis, latas de lixo, músicas bregas, filmes ruins e muito mais.
Você é, sem que nunca o tenha vislumbrado, a mais serena e a mais intangível das popstars.
Ao tentar copiá-la, mesmo que parodiando, aí que se percebe ainda mais profundamente o quanto você é irreproduzível, mas mesmo assim a gente tenta, pois a perfeição é muito sedutora, ainda mais quando sorri.

Galeria de retratos.

Maria Maria minha mãe Anaïs.


Maria Maria minha mãe Anaïs.
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Nanna


Nanna
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Kico.


Kico.
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Wino


Wino
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Bia na Bahia .


Bia na Bahia .
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Gláucia Batista.


Gláucia Batista.
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Joãozinho.


Joãozinho.
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Lívia 1


Lívia 1
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Juliana.


Sem título
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Bia.


des22
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Paula Katarina


Paula Katarina
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Raphael.


des10
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Chico.


des26
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Eu.


des37
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Jairinho.


Jairinho ainda não sabe se gosta
ou não
de macarrão

des13
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Ricardo.


des9
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Alê.


des12
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

Clarice.


des17
Upload feito originalmente por Selma Weissmann

domingo, 25 de outubro de 2009


Almoço.

O primeiro almoço do ano foi patético. A comida ruim foi pretexto para outras sugestões de receitas, temperos que deveriam ter sido usados, técnicas de tias e mães para cozidos, farofas e a maneira correta de aquecer o arroz, além da pimenta que, ao contrário do que se diz, não provoca nem agrava as hemoróidas. Só a pimenta do reino, tia, quando usada em grande quantidade.
Muito cuidado com os ossos de frango, não deixem os cachorros pegarem e embrulhem bem o lixo. Até os cachorros de raça são vira latas, hahaha, sabia disto, tia? Os ossos de frango viram agulhinhas e perfuram o intestino dos cães, provocam hemorragias internas, o bicho morre evacuando sangue.
__Você falou “evacuando”, Lu?
__Claro. Queria que eu falasse palavra chula durante a refeição? compostura é muito importante, num é mesmo tia?
__É, claro que é.

sábado, 24 de outubro de 2009



Paracelso.
15 de agosto de 2009-08-15 (Celso).
Jairinho me ligou chorando muito, foi difícil entender sua voz rouca interrompida pelos soluços. Ele dizia: “faleceu, faleceu hoje, faleceu”.
Quem, Jairinho, quem faleceu? Vinícius, Tom, Michael Jackson? Foi sempre você quem me informou desses falecimentos que o deixaram tão triste e exaltado, quase festivo em seu descontrole de doido quase santo. Quase? Sei não, penso às vezes que Jairinho é santo mesmo, ninguém tem os olhos assim tão transparentes em vão. Aqueles são olhos de santo, ou anjo, caso exista anjo.
_O Celso! Foi o Celso quem faleceu. Acordou, tomou banho, tomou café e faleceu.
Celso era lindo. Também tinha os olhos azuis e transparentes feito os do irmão. Mas não olhos de santo, eram olhos bonitos de gente mesmo. Foi também magrinho, cabeludo e apaixonado por uma inglesa chamada Kath que casou com ele, veio para o Brasil, não gostou, até do marido se desencantou e voltou para a Inglaterra de onde não mais saiu. Soube-se que casou de novo e tem dois filhos.
E o Celso? Continuou apaixonado, sonhava voltar à Europa para arranjar outra inglesinha, e hoje de manhã tomou banho, tomou café e faleceu.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Texto de meu amigo Paulo Augusto de Lima.


Quando eu era menino...
As coisas pareciam mais fortes
Porque eu era menino;
A pimenta, o azeite, o alho pareciam mais fortes;
O quarto parecia maior,
Os horrores pareciam maiores; O leite era o leite.
Quando eu era menino, as calças sim, eram mais curtas,
O sapato vulcabrás,
E eram tantos fardins;
Só depois descobri as matas;
Só via a miséria, às vezes;
Hoje conheço sua face cruel.

Quando eu era menino,era só ir à escola.
Hoje estou formado pela escola da vida.
Deus era só uma idéia;
Hoje, mais perto de Deus.
Mal conhecia o mau;
Hoje o coheço bem.
As mulheres eram meninas,
As mulheres eram mistério.

Também me apaixonei pela
Professora.
Tive um coelho;
Tive um cão;
Tive um passarinho.
Tinha meu avô.
Quando eu era menino.
Oh, que saudades
Que eu tenho.

sábado, 10 de outubro de 2009

Coisas tantas e fascinantes.


Selma Weissmann














Coisas tantas e fascinantes















2007









Ondina, dona Ondina.
A menina, curiosa e dissimulada, ao ouvir o nome Ondina, imaginava seios fartos em luxuoso decote de veludo preto, oscilando feito ondas, em dia de maré calma.


















A mãe e as tias sussurravam quando falavam de Ondina, cuidavam que as crianças não ouvissem, aumentando ainda mais a curiosidade da menina astuta, que fingia se ocupar de qualquer coisa menos suspeita do que o intrigante mistério de Ondina.
Entreouvia palavras magníficas: divórcio, petulância, roupas raras feitas por modistas, leques de plumas, coisas tantas e tão fascinantes que, quando tinha febre, a menininha delirava, imaginando o mundo suspeito e atraente de Ondina, em ondas, quebrando suaves no decote macio.











E a beleza? Ao falarem da beleza de dona Ondina, a mãe e as tias, que ainda eram bonitas, pareciam se recolher à senzala das mulheres feias. Negros cabelos de azeviche, carnudos lábios obscenos de batom vermelho, olhos escuros e pintados de (aí a menina ouviu a palavra mais bonita) : “prostituta”.














Enquanto as mulheres conversam e bordam na varanda, Menina , às escondidas, consulta o dicionário do avô. A resposta não esclarece nem agrada : “mulher de vida fácil, meretriz”. Decepcionada, volta ao alpendre e ouve uma das tias: “à luz do sol, que Deus me perdoe, mas é um descaramento”. Outra tia, esta muito míope : ”foi ela, sim, que acabou de passar, estou sentindo o perfume indecente! “A mãe: ”é uma pena, mulher tão bonita.”











Ao perceber que havia perdido talvez a única oportunidade de ver de perto dona Ondina, a prostituta que acabara de passar diante da casa dos avós, a menina deu meia volta e correu. Passou pela sala de visitas, pela sala de jantar, pelo corredor dos quartos, pela despensa, banheiro e cozinha. Ofegante, desceu a escada que levava ao tanque de lavar roupas, atravessou o longo quintal e chegou ao portão dos fundos, na garagem onde ficava o Chevrolet preto.












Deitou no chão e, pelo estreito espaço abaixo do portão, ainda teve tempo de ver os pés branquíssimos, calçados em estupendos sapatos de saltos muito altos e finos, listrados de preto e branco: listrinhas bem finas, discretas, a coisa mais inusitada que já vira.












Continuou deitada no chão até parar de ouvir o toc-toc dos passos de Ondina. Respirou fundo várias vezes, apreciando o ar puro da tarde verde e resolveu: ”quando crescer, só vou usar sapatos bonitos assim, de meretriz”.

Minha filha disse.

Minha filha disse.

Minha filha disse: _Acho que vovó roubou a idéia de Guimarães Rosa quando escreveu o conto do jardim, parece demais.
Não roubou não, meu bem, sua avó não roubaria nem dinheiro, quanto mais um jardim. Acontece que naquela época toda criança, principalmente as muito sós, tinham jardim com insetos, passarinhos e gato. Até eu, que vim depois, fiz guirlandas de miositis e me escondi no meio da cerca viva para esperar o pulo do gato em cima do rato.
Minha tia perdeu a aliança no jardim e nunca mais a achou, por mais que cavucássemos a grama e a terra dos canteiros. A busca durou semanas e o assunto meses, foi uma de minhas mais emocionantes aventuras, mesmo que em vão.
A aliança da Tia deve estar debaixo do prédio que construíram no lote onde havia o jardim. Prédio grande e feio com jardinzinho raso onde não se pode nem perder uma jóia para sempre.

Laços e lenços.

Laços e lenços.

Arrumados em uma velha caixa de lenços” Paramounte”, você deixou para mim uma flor seca e um monte de lápis-de-cor da sua infância. Alguns muito gastos, toquinhos pequenos, outros quase inteiros, cores que não deviam lhe agradar, vermelho sangue, por exemplo, você nem usou.
Amarelo e azul celeste, você quase acabou com eles. Parece até que só guardou os caquinhos para que me servissem de guia na viagem para trás em busca de sua infância da qual, sem que soubéssemos, eu já fazia parte.
Alguns lápis têm na parte superior um chanfro vigoroso, feito à faca de cozinha, onde sua mãe escreveu “Ricardo”.
Guardiã dessa estória triste , cheia de afetos e cuidados, contida na antiga caixa de lenços, eu me pergunto o que houve com Ricardo Menino que gostava tanto de azul e amarelo , nunca vermelho sangue? Oque houve com Ricardo Menino que deixou para mim todos os lápis-de-cor que o menino Ricardo não acabou de usar?
Cadê o menino, cadê a menina? Ela vai enxugar lágrimas com lenços que não são mais de pano, lágrimas e lenços descartáveis? Ou , com muito cuidado para não quebrar as pontas, em registros coloridos, ela tenta redesenhar a vida e viajar pra frente?

Amigos.

Amigos.( Um caso comum).

Fomos amigos por muitos anos. A presença dele me trazia alegria e a minha, por algum motivo vago, fazia com que ele se sentisse importante. Tínhamos dias certos para nossos encontros. A felicidade com hora marcada. Os risos, as pantomimas, às vezes lágrimas rasas, saudades da adolescência e da infância que, não sabíamos então, ainda estavam muito perto de nós.
Um belo dia, ou noite, uma terceira pessoa apareceu. Outras já haviam surgido e em nada interferiram em nossa amizade, eram coadjuvantes ou espectadores de nosso perfeito entrosamento.
O terceiro, aquele a quem Tereza deu a mão, chegou para criar uma cisão entre nós. Aos poucos, nossa amizade tornou-se nublada, carregada de olhares suspeitos e palavras dúbias. Nossos encontros se espaçaram, meu amigo adquiriu hábitos incompatíveis com os meus, até que parou de me procurar.
Não sofri com a ausência, tive até certo alívio em deixar para trás todas as lembranças que de repente já não me eram mais atraentes.
Eu o encontrei algumas vezes casualmente e fomos educados e cordiais como devem ser conhecidos antigos e distantes. A última vez que o vi, percebi que seu bonito rosto estava marcado e triste. Pareceu-me alguém sem importância.
O Terceiro? Não sei por onde anda, é provável que tenha se mudado daqui.
23 de janeiro de 2009.

Kaká e Bete.

Kaká é Carmem.
Baixinha, olhos enormes e grandes perspectivas : quer comprar uma casa pequena num terreno bem grande, plantar muito, criar bichos, inclusive rãs, viver “em comunhão com a natureza”. Isto, quando ela tiver dinheiro, Kaká me conta enquanto separa mudinhas de suculentas dentro do saco plástico . Ecológica, ela vai plantar nas jardineiras das minhas velhas janelas, tão bonitas quanto preciosas e desgastadas.
Eu a observo, simulo atenção enquanto penso em Bete.
Bete, Lizabeth, teve quase tudo : muitos homens, algumas talvez mulheres,uma casa grande onde ela passava mais tempo no porão onde, ninguém sabia o porquê, ficava um piano de meia cauda que Bete tocava alegre e cantava alto. Voz fininha, vaudeville alemão. Alegre, sempre muito alegre, morreu de repente sem nunca haver percebido que era triste.
Volto à Kaká. Carinhosa com plantinhas e pessoas, explica a diferença entre a boa terra e os substratos, enquanto brinca com a minhoca marron e úmida que faz nervosas volutas entre seus dedos delicados.

Ela.

20 de agosto de 2009.

Ao perceber que ela está chegando, feche bem a janela e os botões da blusa. Ligue a televisão e faça esforço para se concentrar no que estiver passando, mesmo e principalmente se for algum esporte coletivo.
Você pode se sentar em uma cadeira dura, manter a coluna ereta e não desviar os olhos do monitor. Se houver um cachorro, ele vai deitar ao seu lado e será de grande ajuda caso haja qualquer ameaça.

18 de agosto de 2009. (Lembranças).
(perdão pelo “arquivo empoeirado da memória”, foi irresistível).

Estas unhas onduladas nas pontas de meus dedos não são as minhas. Aliás,nem os dedos são meus, pertencem a outra pessoa que conheci e não consigo localizar no arquivo empoeirado da memória.
Mas as unhas, estas eu conheço muito bem. São as unhas de minha mãe que me encantavam enquanto ela tricotava longas echarpes para Isadora Duncan. Ou finos casaquinhos de meia-estação, pois o clima era perfeito naqueles dias.
A pele enrugada de papel crepon na parte interna dos cotovelos também não é minha. É a pele de minha avó e é agradável acariciá-la de novo enquanto a velhinha dedilha o rosário eterno de sua tristeza e observa os poucos transeuntes na praça ensolarada.
--“Lá vem Aída com o cachorro Lux.”
--“Alfredo vai à igreja com a mulher e a filha e o sino ainda nem chamou para a missa.”
--“Cuidado, menina, não embarace as meadas da lã, estes fios são muito delicados e há pequenas nuances de cor que só aparecem depois do trabalho pronto.”
--“Seu avô está chegando, manda Antoninha servir o café.”
Aída chegou, conversou um pouco e foi embora. Ela e o cachorro Lux.
Alfredo e a família ainda estão na igreja, compenetrados e solenes, enquanto a menina leviana embaraça irremediavelmente as lãs de todas as cores.
O avô? Sentou-se cansado no sofá de couro marron e fechou os olhos.
Está dormindo.

sábado, 29 de agosto de 2009

24 de agosto de 2009.

--Porque as pessoas choram?

--Não sabe? Nunca chorou?

--Uma vez, há muito tempo.

--Quando te deixaram?

--

--As pessoas choram por vários motivos. Quando alguém morre, quando alguém fica só. Quando não conseguem suportar.

--O que?

--Viver. Quando sofrem.

(Kieslowski. “Não amarás”).

21 de agosto de 2009. (composição escolar triste).

Bijou, a cadelinha de nossa casa, morreu há quatro anos.

Ela fez de tudo: fugiu, foi atropelada, ficou velha e manca, conheceu todos os mais escondidos refúgios debaixo da escada, comeu bonbril, matou ratos, mordeu algumas pessoas, lambeu as mãos de outras, andou cega sem pisar em nossos desenhos espalhados pelo chão, passou um tempo triste no hospital, voltou de taxi reconciliada conosco, viveu mais uns dias e morreu.

Há retratos de Bijou , um na sala e outro em meu quarto, como se ela tivesse sido uma parenta antiga com lugar garantido na galeria dos antepassados, junto da avó sombria e do tio-avô poeta.

Meu filho diz que às vezes ouve o barulho das patinhas dela andando pela casa à noite.

Eu não ouço nada.

Nada.

A visita do filho.

2 de agosto de 2009.

Vou fingir que acredito que este homem de olhar evasivo atrás dos óculos é o meu filho. Tentar ser natural e conversar com ele como se não estivesse sabendo que é um impostor que se apoderou de alguma forma da alma de meu filho.

Não é fácil, pois enquanto finjo que acredito nele estou sendo uma impostora também. Quando estou com o meu filho verdadeiro, passo a mão em seus cabelos e o abraço pela cintura. Deste homem não chego nem perto, não temos intimidade para carinhos destes que só se tem com filhos. Ele fala em advogados, computadores, aplicações na bolsa, tem o sorriso ríspido, gestos nervosos de visita de cerimônia e me causa um pouco de medo. Nossa conversa tem longas pausas nas quais cada um pensa que está enganando o outro. Ele boceja, eu ajeito o cabelo, nos entediamos um pouco até ele dizer que precisa ir embora, tem um compromisso.

_Então tá, bom você ter vindo, vai com Deus.

Ele vai com Deus enquanto eu me lembro de um haikai do Millor:

“eu vi que não era ele, ele viu que não era eu.”